Leitura e transição capilar. Pode isso, Arnaldo?

“Então, o cabelo de Ifemelu começou a cair na altura das têmporas. Ela o encharcava com condicionadores espessos e cremosos e postava-se embaixo de secadores profissionais a vapor até gotículas de água começarem a lhe escorrer pelo pescoço. Ainda assim, seu cabelo foi ficando mais ralo a cada dia. ‘São os produtos químicos’, disse-lhe Wambui. ‘Você sabe o que tem num relaxante? Essas coisas matam. Tem de cortar o cabelo e deixá-lo natural.’

Wambui estava usando o cabelo em caracóis curtos dos quais Ifemelu não gostava; pareciam esparsos e sem graça, e não valorizavam o rosto bonito de sua amiga.

‘Não quero usar dread’, disse ela.

‘Não precisa ser dread. Você pode usar um afro ou tranças, como costumava fazer. Pode usar seu cabelo natural de muitos jeitos.’

‘Não posso simplesmente cortar meu cabelo.’

‘Relaxar o cabelo é que nem ser preso. Você fica numa jaula. Seu cabelo manda em você. Não foi correr com o Curt hoje porque não quer suar e ficar com o cabelo crespo. Naquela foto em que me mandou, estava com ele coberto no barco. Está sempre lutando para fazer seu cabelo ficar de um jeito que não é o normal dele. Se o deixar natural e cuidar bem dele, vai parar de cair. Posso ajudá-la a cortá-lo agora mesmo. Não precisa pensar muito.”

Logo após a leitura desse trecho, tive uma epifania. Tive a certeza de que agia exatamente como a personagem principal, Ifemelu. Tive a convicção de que a cada vez que me deslocava para ir ao salão, retocar a raiz devido à progressiva, eu estava me negando um pouco mais…

Essa obra da autora Chimamanda Ngozi Adichie trouxe, junto com a ficção, fatos reais e históricos sobre negros americanos, sobre negros imigrantes nos EUA, sobre negros com status de estrangeiros na Nigéria, mas, além dos fatos, do romance, ela trouxe a identificação e isso é precioso. Não, não sou negra – como a maioria das personagens no livro é – mas empatia não tem cor.

A história e seu desenrolar me cativaram, conforme a leitura foi avançando, e ficou impossível não torcer pela protagonista, por um desfecho à altura de tudo que ela tinha contado. Ver-me em algumas das situações vivenciadas por Ifemelu doeu, e isto não foi ruim, pois me cutucou, me fez despertar!

Hoje, mais de um ano após essa leitura, minha transição capilar está completa, enquanto digito, tiro os cachinhos que caem no rosto; e a história, e toda a importância dela, continua bem vívida na minha memória e na minha aparência também.

Indico esse livro incrível por ser extremamente bem escrito, por ser de uma autora, por ser de uma autora negra, por ter uma personagem feminina que se destaca, por ser uma crítica direta ao preconceito, por entreter, por permitir, por libertar – seja uma mente fechada ou um cabelo preso.

Link para leitura do 1º capítulo, fornecido pela editora: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13525.pdf

Imagem: reprodução Amazon

2 thoughts on “Leitura e transição capilar. Pode isso, Arnaldo?

  1. Muita gente indica esse livro, dizem que é ótimo! Gostei muito de que trouxeram o assunto de transição capilar nele (mesmo não utilizando o nome), pois deve ajudar muitas meninas (assim como te ajudou) a aceitar o cabelo como ele é. 🙂 Pelo que parece, ele não é só importante por isso, como também por ser de uma autora negra, com uma personagem principal negra e sobre falar a respeito da história negra. Adorei!

    Beijo

    1. Eu sou suspeita – e posso até soar redundante – mas Chimamanda é uma autora e tanto! Eu a “conheci” em uma palestra do TED, que até virou livro, “Sejamos todos feministas”. Se ainda não leu nada da autora e quiser conhecê-la, antes de encarar esse calhamaço, sugiro que assista à essa palestra no Youtube.
      Mas, se já a conhece, se joga nesse livro!rs E volta aqui pra me dizer o que achou! 😉

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *