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Maternidade Compulsória

Comecei a pensar nesse texto na época de dia das mães. Comecei a pensar em como as mães são exaltadas nesse dia. Em como existe pressão da sociedade sobre sentir o tal “maior amor do mundo” ou sobre “só ser feliz e conhecer esse amor incondicional após ter filhos“. Oras, já pensou em como isso é excludente com mulheres que não podem/querem ter filhos e até com os homens? Já pensou que muitas mulheres não podem, por algum problema de saúde seu e/ou do companheiro (a), gerar filhos e optam por não adotar? E mesmo aquelas que não tem nenhum problema de saúde não o querem, nem biológicos e nem adotados? Mas você também já parou para pensar que essas mulheres são julgadas pela sociedade ao chegar nos 40 anos sem filhos? Pois é, isso acontece e muito!

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A frase mais comum pra um casal recém casado é “Quando vem os bebes?”. Se eles estão casados a, sei lá, 5 anos, a família inteira (de ambos os lados) cobram crianças. Mas alguém pergunta se eles desejam ter filhos? Aliás, essa é uma pergunta válida?

Se uma mulher chega aos 30 anos sem estar namorando, já repararam como ela é julgada (a começar pela família) por “não ter muito mais tempo” para procriar? Por outro lado, se é um homem nessa situação, dificilmente ele é questionado sobre o motivo de não estar casado e planejando filhos, “afinal, homem pode ser pai até depois dos 60“. Pois é amigas, o nome disso é maternidade compulsória. Uma das várias vertentes do machismo patriarcal que vivemos.

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Pois bem, dito isso vamos a algumas informações. Segundo dado divulgados em post de 01/2016 no site AzMina, a maior concentração de mulheres que dizem claramente não ter filhos está no sul e sudeste do Brasil e, adivinhem: são brancas. Além desses dados, ele mostra que a maioria esmagadora tem uma carreira já bem avançada chegando a 8 anos de estudo em graduação, pós-graduação, doutorados e mestrados. O isso significa? Que a mulher de classe média, branca, aquela que esta quase no topo da pirâmide de privilégios, pode optar por ter ou não filhos. Já uma mulher, negra, pobre, moradora de comunidades no norte e nordeste, não tem a possibilidade de pensar sobre isso, afinal a gravidez durante a adolescência é uma constante na vida delas. Em que isso implica na vida de uma mulher? Isso implica em muito!

A ideia de que uma mulher deve ser mãe vem da Igreja Católica (sempre ela). Desde que Maria aceitou carregar o Salvador ela virou o que? Sim, isso mesmo, Santa. E José que aceitou ser o pai, cadê? Pouquíssimo se fala sobre ele. É daí que vem a ideia de que toda mulher tem a obrigação de ter filhos ou de que ela só será completa se os tiver. Qualquer mulher que tenha a ousadia de falar que não pode, não quer ou não gosta de ser mãe é apedrejada (figurativamente, na maioria dos casos, mas literalmente em alguns países africanos e asiáticos, infelizmente) por quem ouve essa declaração. Mas você pode gostar ou não gostar de ser tia, por exemplo, mas falar que não gosta de ser mãe é um problema, afinal “você gerou esse bebe e não gosta? Não deveria ter engravidado, então”. Aí se não engravida, sofre com pressão para engravidar.

Quando se fala em maternidade compulsória, muita coisa vem junto com essa discussão: a ideia de que bonecas são brinquedos femininos, aborto, mito da mãe perfeitamito do maior amor incondicionalmito da realização através de filhos e o mito de que homens não podem e nunca sentirão isso. São pouquíssimas as cobranças que cai nos homens, não é mesmo? Desde José eles são levados a acreditar que não fazem parte desse universo ou se fazem, jamais sentirão o que uma mulher sente. As consequências são infinitas para todos os envolvidos: para os homens que podem se sentir excluídos; para os homens que acham que abandonar um filho é opção válida; para as mães que são obrigadas a arcar com criação e, muitas vezes, despesas desses filhos sozinhas; para as crianças que crescem sem a figura paterna. E por que tudo isso? Porque as mães são super mulheres e devem aguentar tudo, afinal “quem pariu Matheus que o embale” né nom?

Não!!! Não é não amigas e amigos! Uma criança se for menina não tem que ganhar apenas bonecas “porque isso é brinquedo de menina”, assim como os meninos não podem ser excluídos de ter esse brinquedo só por serem meninos, afinal isso cria na cabeça de um ser em formação a ideia de que apenas mulheres podem cuidar de bebes. Na vida adulta a mulher tem que ter a opção de não parir (seja através do uso de preservativos/anticoncepcionais para não engravidar; seja optando por não continuar com uma gestação indesejada) sem que ninguém, além dela mesma, a obrigue a tomar uma decisão que mudará tudo (e para sempre) na vida dela. E quando eu digo isso, entra aquela pergunta inocente para sua amiga (prima, irmã, sobrinha, vizinha) sobre quando virá o bebe.

Separei alguns pontos para ninguém fazer cobranças sobre esse tipo para um mulher:

1º – ninguém deve ser obrigado a fazer algo com o próprio corpo e/ou vida se não quiser;

2º – se uma mulher opta por não os ter, isso não é da conta de ninguém, além dela mesma e de seu parceiro (a);

3º – você vai ajudar a sustentar e educar a criança, se a mulher para quem você pergunta sobre filhos optar por tê-lo? Se sim, ok, sua pergunta foi válida. Se não, então isso não é da sua conta;

4º – breaking news: uma mulher pode sim ser completa se não tiver filhos. Veja aquela sua vizinha/parente que não tem filhos. Tenho certeza que ela é uma mulher tão feliz quanto você que os tem;

5º – instinto materno não existe antes de você ter um bebe, porque veja bem, você não é mãe  😉

6º – amor de mãe não é o maior do mundo porque se fosse, não teríamos tantas crianças abandonadas em orfanatos e elas são abandonadas justamente porque as mulheres não as queriam, mas foram obrigadas a isso.

Entendem como vários assuntos “polêmicos” se entrelaçam?

O mito da super mãe e do amor incondicional já é estudado por cientistas e eles já provaram que isso não existe. Se você acha isso tudo balela, que tal ter um pouco mais de empatia e entender que se algo é certo para você, pode não ser para o outro?

Outro ponto que as pessoas confundem e/ou não pensam quando fazem essas perguntas é a questão gravidez x criação. Muitas mulheres desejam engravidar. Ver a barriga crescer, se preparar para a chegada de um bebe, o parto e os primeiros meses onde eles são fofinhos e gordinhos. Depois que o bebe completa um ano as postagens em redes sociais diminui, vocês já repararam? Para qualquer pessoa que convive de perto com crianças, sabe que é a partir de 1 ano que as elas começam a demonstrar suas vontades próprias de forma que os adultos entendam. E é aí que a coisa aperta e a questão criação entra em jogo. Se a mãe conseguiu passar minimamente marcada e julgada pelos primeiros meses, nesse momento, além das cobranças externas, ela tem de lidar com as cobranças e até julgamentos da própria criança. Mas isso ninguém conta quando cobram se “o bebe já esta sendo produzido”. O nome disso? Hipocrisia.

Que o mundo é hipócrita, todos concordamos né? Mas quando se fala em maternidade e na obrigatoriedade de ser mãe, parece que o mundo atinge níveis extraordinários. Pouco se fala sobre as questões difíceis de criação. Aliás, pouco se fala sobre criação fora de grupos de mães.

Outro dia eu li um comentário na internet onde a pessoa falava “mas ninguém pergunta para uma mulher o porque ela engravidou, logo não deveriam perguntam porque não engravidam também“. Não concordo com isso, porque a verdade é que ninguém tem nada com a vida do outro. Nem se você é mãe/irmã/amiga/tia/prima de uma das pessoas envolvidas na questão. Então vamos combinar uma coisa? Não perguntem! Simples assim. Guardem suas dúvidas para você mesma/o. Se a mulher quiser ter filho, em algum momento ela vai dizer. Ou não. Ela pode simplesmente aparecer grávida, contando a novidade para a família e amigos. E aí você fica feliz por ela. Faça desse momento um grande momento de alegria para todos e não um momento de alegria depois de um período de cobranças que não dizem a respeito a vocês  😉 

Para completar, deixo aqui esse texto da Clara Averbuck onde ela, mãe, fala sobre a maternidade compulsória e o momento de ter filhos!

Bjks

Imagem: Freepik (modificado)

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