Meus filhos não serão príncipes e princesas.

Não, eu não estou grávida. Escrevo esse post pensando em filhos que terei um dia.

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Na minha casa, nós (eu, minha irmã e irmão) nunca fomos chamadas por princesa/príncipe. Não sei por que, mas meus pais nunca foram de nos dar esses apelidos. Sempre fomos Cá, Ju e Du. E sempre foi bom assim.

Quando eu estava com uns 10, 11 anos e fui fazer meu primeiro e-mail, lembro de ter criado algo do tipo camilaprincess. Era fase de pré-adolescência e eu muito influenciada por programas e séries gringas. Adorava aquelas coroas usadas nos EUA (quem não se lembra de Rory no aniversário de 16 anos usando uma em Gilmore Girls?) e me deixei influenciar.

Com a adolescência vieram os questionamentos normais – ajudados pelas aulas de sociologia nos três anos do Ensino Médio – sobre a sociedade machista em que vivemos, mas ainda assim costumava chamar as meninas recém-nascidas de princesas.

Alguns anos atrás eu vi o vídeo de uma empresa de brinquedos gringa onde dizia que as meninas poderiam ser o que elas quisessem, inclusive, engenheiras e que os brinquedos X, Y e Z também eram para elas. Pronto, o mosquitinho da injustiça tinha me picado e mesmo sem ter expectativas de parir num futuro próximo eu comecei a questionar esses valores.

Sempre questionei quanto as mulheres adultas se acharem princesas, mas confesso que nunca tinha me questionado quando o assunto eram as pequenas. Oras, se alguém cresce achando que o mundo é cor de rosa e que todas as meninas são princesas, claro que irão crescer achando que todas as mulheres são rainhas. Parece tão óbvio, mas eu nunca tinha pensado dessa forma.

Pois bem, voltando ao vídeo – e por causa de uma discussão que ele gerou no meu facebook – eu decidi que minha (futura) filha não será uma princesa.

Primeiro porque as princesas dos desenhos animados são inúteis. Sim, elas são. O que fazem da vida além de esperar pelo príncipe encantado? Nada. Na maioria esmagadora dos casos, elas ficam presas esperando. Em casos em que achamos que elas têm liberdade elas ainda estão presas.

A Bela de A Bela e a Fera, por exemplo, não tem liberdade. Ela estava lá para salvar a pele do pai que já era idoso (ok, todo mundo faria isso), mas estava lá sob ameaças e tendo de agüentar situações horrendas porque a Fera era muito mal humorada. Visão clássica de mulher submissa agüentando maridos que não ajudam em nada e em casos mais extremos que apanham desses mesmos maridos e acham tudo normal.

Meu questionamento nesses casos de princesas Disney é o que estamos ensinando para nossas meninas? Que precisamos de um boy para nos salvar? Que temos de agüentar qualquer tipo de humilhação por causa do amor? Que mesmo assim seremos “felizes para sempre” (esse também um conceito erradíssimo). Não quero esses exemplos para minha filha.

Aí sempre vem alguém e me de diz: “isso não é realidade, é só desenho”. Mas as crianças pegam todos os exemplos e criam suas próprias realidades e sinceramente, não acho que esses sejam exemplos que desejo dar a ela.

Também sempre questiono: princesas reais. Sim, falemos de Lady Di, Kate Middleton, Grace Kelly e tantas outras. Elas não vivem a espera de um boy para salvá-las (até porque algumas são princesas e seus maridos é que não os são), mas possuem limitações que qualquer outra mulher não tem. Elas não podem falar o que desejam. Tem sempre de dar a resposta correta, no momento correto, no tom correto. Imagino uma briga entre príncipes e princesas com todo mundo correndo, pedindo que eles falem mais baixo, bem estilo Downton Abbey rs.

Outro ponto que sempre me irrita: roupas. As coitadas não podem usar o que desejam. Duvido que elas gostem de só usar roupa elegante. Todo mundo gosta de dormir com calça de moletom ou de flanela no inverno. Não imagino uma princesa dormindo com uma meia furadinha rs Ok, Kate Middleton, trouxe a realeza para mais perto de nós, plebéias, desde que começou a usar fast-fashion, mas ainda assim é muito distante. Vou gostar de verdade o dia que ela der uma de Mellie (Scandal, season 4) e aparecer de moletom, bota de neve e descabelada. Aí sim vou achar que ela é uma mulher de verdade!

A situação dos meninos também não é boa. Coitados, imagina o peso que eles devem sentir tendo que passar a vida salvando as meninas? O peso de não poder fazer nada errado, de não chorar, não demonstrar emoção em público, de estar sempre com a coluna ereta. Deve ser chatíssimo não poder despirocar de vez em quando. O coitado do príncipe Harry quando fez algumas coisas normais que garotos/homens da idade dele fizeram, foi massacrado pela mídia, pelo público e por seus familiares que correram abafar o caso. Coitado, não estava fazendo nada demais, só jogando strip poker com uns amigos #quemnunca.

Enfim, não fiz psicologia, porém li muita coluna da Regina Navarro Lins nos jornais de domingo para querer que minhas filhas/filhos sejam princesas/príncipes. Quero que eles tenham liberdade e que não fiquem presos a padrões que não condizem com nossa realidade. Acho que essa relação princesa/príncipe era muito boa no século XIX, mas hoje, em pleno século XXI eu não quero que meus filhos tenham esses exemplos. Vamos pra frente gente e não voltar para o passado de 2 séculos atrás!

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