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Nos vemos por aí

Eram 4 da manhã quando ela virou pro lado.

Sentou.

Olhou ao redor, viu um rosto estranho, ‘’é tudo tão estranho’’. Esse peso que sentia já não sente mais. Apesar de ser estranho essa vida, assim, rodeada de pessoas e tão sozinha, sente o peso de carregar o mundo nas costas. Ou melhor, sentia até aquele acordar de madrugada.

Levantou.

Deu uma volta pela casa. Abriu a geladeira e o fogão. Voltou para o quarto, arrumou uma pequena mala e se foi.

Sentiu uma força que não sabia explicar de onde vinha. Uma força que impulsionava, que jogava pra cima, que fazia arriscar tudo o que tinha e que há muito era direito e certo. Lembrou de um poema onde dizia que as vezes precisamos do errado, porque o errado é o certo e o certo é muito certo e chato.

Era isso o que fazia nesse momento: deixava o certo para trás.

Decidiu mudar e começou deixando aquele que há muito tempo era um desconhecido. Já não se amavam mais, já não tinham uma vida em comum, nem as contas dividiam mais. Dividiam a cama, o lugar de dormir, isso porque o sexo existia apenas por necessidade física já que, depois, cada um virava pro seu lado e dormia.

Ela dormia.

E acordava toda noite sempre no mesmo horário, fazia sempre o mesmo ritual: cama-geladeira-fogão-cama e sempre tinha o mesmo sentimento de desajuste.

Cansou.

Agora andando pela rua ainda escura, sem rumo definido, pensava em outras coisas.

Família, amigos, trabalho.

Quão enfadonho era o seu trabalho? O chefe sempre estressado, sempre gritando e suando feito um porco. Feito um porco não! Pobres porcos que nada tem com isso. Nossa como suava! Cada vez que ele entrava em sua sala ela sentia náuseas. Agora podia respirar aliviada, porque nunca mais teria que ver aquela cena.

Pensava na sua família agora. Amava os seus, mas desde que ele entrara em sua vida passou a viver muito mais com os familiares dele do que com os seus próprios. Natal, Páscoa e todos os feriados familiares sempre acabavam na casa da sogra ou das cunhadas. Precisava voltar para os seus. Já os amigos, desses restaram uns poucos que mandavam email vez ou outra, combinavam uma saída que sempre acabava furada por alguém.

Pensava em quem deveria ir atrás, se tinha alguém para ir atrás. Descobriu que nesse momento precisava ficar a sós consigo. Precisava decidir o que fazer, para onde ir…

O dia amanheceu.

Resolveu pegar o primeiro ônibus que visse pela frente, mas antes decidiu mandar flores com um bilhete que continha o endereço de um depósito para onde ele deveria enviar suas coisas. O bilhete terminava com ‘’Nos vemos por aí’’.

Nunca mais se viram.

*texto meu, resgatado de um blog antigo

Imagem: Freepik (modificada)

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